sábado, 19 de janeiro de 2013

I Simpósio Regional Nordeste da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR)


Já se encontram abertas as inscrições para participação nos minicursos e para propostas de comunicação nos Grupos de Trabalho do I Simpósio Regional Nordeste da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR).

O prazo final para o envio das propostas de comunicação é 28 de janeiro de 2013.

O evento ocorrerá entre os dias 28 e 31 de maio de 2013 na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)

Site do evento: http://abhrne2013.blogspot.com.br/

Relação dos Grupos de Trabalho e Minicursos: http://abhrne2013.blogspot.com.br/p/grupos-de-trabalhos-e-minicursos.html

Para maiores informações, entre em contato com a organização do evento através do e-mail: abhr_ne2013@yahoo.com.br

Atenciosamente,

Secretaria de Divulgação - ABHR

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Travestis do CE lançam calendário com referências religiosas


Do G1 CE

Uma das imagens do translendário 2013 mostra a crucificação (Foto: Divulgação)Uma das imagens do translendário 2013 mostra a crucificação inspirada em quadro do artista espanhol Salvador Dalí (Foto: Divulgação)

Um grupo de travestis de Fortaleza lança nesta quarta-feira (16) a 2ª edição do “translendário”, um calendário ilustrado com imagens de travestis em referência a símbolos religiosos. Neste ano, o grupo se inspirou em santos de diversas religiões para criar os próprios deuses e santos protetores dos travestis.
Em 2012, o calendário do mesmo grupo gerou polêmica ao replicar imagens sacras, como a Última Ceia, de Leonardo da Vinci, e Pietà, de Michelangelo. “No ano passado nós retratamos imagens clássicas, não apenas religiosas. Se eles entenderam isso como ofensivo, esse vai ser mais ainda”, diz o idealizador do projeto, Silvero Pereira.


Também na edição 2013, há a “deusa dos incubados”, inspirada no deus da mitologia nórdica Thor. “A deusa faz referência ao universo machista e preconceituoso, que mantém gays incubados, sem assumir a homossexualidade. Nós a representamos pela figura masculina do Thor”, explica Andrei.Numa das páginas do translendário 2013, há uma crucificação inspirada em um quadro de Salvador Dalí. “O objetivo não é retratar Jesus Cristo. Nós nos inspiramos em religiões e criamos nossos santos e deuses”, explica o diretor de arte do translendário, Andrei Bessa.
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Deus da mitologia nórdica Thor é a inspiração para a deusa que protege gays que não assumem ser homossexual (Foto: Divulgação)Deus da mitologia nórdica Thor é a inspiração para a deusa que protege gays que não assumem ser homossexual (Foto: Divulgação)
Inspirada em uma santa católica, o grupo também criou a “Nossa Senhora Protetora das Esquinas”. “A ideia dessa santa é proteger os travestis que se prostituem nas esquinas de Fortaleza e de todo o Brasil”, explica o diretor de arte.
Santa inspirada na religião católica protege travstis que se prostituem em esquinas (Foto: Divulgação)
Santa inspirada na religião católica protege travstis
que se prostituem em esquinas (Foto: Divulgação)
O calendário com travesti também gerou polêmica em 2012 por uma denúncia feita na Assembleia Legislativa do Ceará de suposto financiamento de órgão público. Segundo Silvero, não houve o apoio financeiro denunciado pelo deputado estadual do Ceará Fernando Hugo (PSDB). “O deputado deu um tiro no pé. Todo o pronunciamento só ajudou a popularizar o nosso projeto”, diz o idealizador.
Na segunda edição, o ensaio fotográfico foi feito com contribuição de pessoas que simpatizam com o projeto. Eles pediram doações e arrecadaram R$ 11.200, de acordo com Silvero Pereira. O projeto custou R$ 10 mil e o valor arrecadado restante será destinado ao Coletivo Artístico das Travestidas, um grupo de teatro, dança e música composto por travestis do Ceará.
"O objetivo do calendário não é causar confusão, mas inserir os travestis na sociedade. Por que um travesti não pode ser associado a uma religião?", questiona Silvero.
Lançamento
O translendário será lançado nesta quarta-feira na boate Music Box, em Fortaleza, à meia-noite. A entrada do evento custa R$ 15. No local, o calendário com os travestis será vendido por R$ 25.
Fonte: G1

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Os sabores dos arquivos portugueses


Mauro Dillmann
Doutorando em História, Unisinos/RS


Referindo-se ao prazer de pesquisar em arquivos, a historiadora Arlette Farge no seu livro O sabor do Arquivo (Edusp, 2009) referiu-se metaforicamente ao “sabor” que deles pode experimentar o historiador. Posso dizer que a pesquisa nos arquivos e bibliotecas de um país historicamente cristão e devoto, como Portugal, é realmente uma experiência incrível e saborosa. Da tradição dos doces “conventuais” – referência à culinária praticada nos antigos conventos – passando pelas igrejas lotadas nas missas dominicais, até à impressão de fac-símiles de obras de religiosos do período medieval e moderno, percebe-se que Portugal ainda preserva muito da tradição católica dos tempos passados. Ao historiador interessado em religiões e religiosidades, fontes e referências de pesquisas não faltam.
É profícua quantidade de documentos disponíveis nos arquivos e bibliotecas. Além disso, os trabalhos acadêmicos são bastante pautados pela empiria e pela transcrição de documentos. Existem também muitos livros publicados pela Biblioteca Nacional de Lisboa que são guias bibliográficos e referências de fontes. Dependendo do tema a ser pesquisado, torna-se um atalho interessante. E um exemplo simpático – timidamente realizado no Brasil – do como partilhar informações e fontes primárias ou bibliográficas pode ser um caminho oportuno para o desenvolvimento de novas pesquisas ou diferentes olhares sobre uma mesma temática. Parece não haver “reserva” de arquivo e os documentos são divulgados no melhor estilo “solidariedade intelectual”.
Em Coimbra, a Universidade dispõe de uma ótima biblioteca – embora descentralizada – principalmente se considerarmos a possibilidade de consulta aos documentos da Joanina. Lá estão as obras mais raras e mais antigas. Para consultar seu acervo há a necessidade de requisitar com um dia de antecedência e existe uma sala específica para a consulta. Tal como a cidade, os funcionários conservam algo de provinciano. A biblioteca fecha ao meio-dia, retornando às 14h. Como o horário de trabalho da funcionária encerra às 17:30h, a pesquisa às obras da Joanina fica limitada ao seu expediente, embora a biblioteca continue em funcionamento até às 22h.
Na Biblioteca Nacional de Lisboa é possível encontrar desde manuscritos até obras publicadas recentemente. A Biblioteca funciona das 9h30min às 19h30min, sem interrupção ao meio-dia. O ambiente de pesquisa e leitura é agradável e aconchegante, mas a iluminação não é muito boa depois das 17h30min, quando começa a escurecer no outono/inverno. Para consultar qualquer obra é preciso primeiro localizá-la no catálogo, anotar a cota (o indicativo da busca formado por letras e números) para então fazer a requisição. Dependendo do documento – principalmente em casos de mau estado – a requisição deve ser feita manualmente, justificando o motivo da consulta. O problema é que nem todo o acervo está catalogado no sistema operacional, sendo necessário muitas vezes, consultar o velho fichário, o que demanda tempo e paciência.  O sistema de pesquisa avançada também não é muito eficiente, não existindo, por exemplo, a possibilidade de pesquisar separadamente obras de determinados períodos ou séculos. No mais, é possível solicitar até 12 referências de uma única vez, e o que é melhor: é possível fazer cópias pagando-se algo em torno de R$ 0,30 por folha. Mesmo as obras em mau estado são disponibilizadas aos pesquisadores que justificam o motivo da consulta e esse é outro diferencial importante. Lembro que uns anos atrás – desconheço o estado atual do acervo e a política de sua gestão – os jornais da Biblioteca Pública Pelotense não podiam ser consultados por estarem em mau estado. Estavam “fechados”, guardados para a “eternidade” talvez?! 
Enfim, a pesquisa no acervo desses arquivos é sempre surpreendente. O prazer das descobertas e o “espanto” é uma característica nossa, dos historiadores. Aqui, de fato, temos muitos motivos para nos impressionar. E não estou falando da crise econômica atual ou dos maravilhosos doces regados a ovos e amêndoas, mas dos sabores indescritíveis dos arquivos em termos de religiões e religiosidades. Sabores que vale a pena ser experimentados.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Os evangélicos e a ditadura militar


Documentos inéditos do projeto Brasil: Nunca Mais - até agora guardados no Exterior - chegam ao País e podem jogar luz sobre o comportamento dos evangélicos nos anos de chumbo

Rodrigo Cardoso
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No primeiro dia foram oito horas de torturas patrocinadas por sete militares. Pau de arara, choque elétrico, cadeira do dragão e insultos, na tentativa de lhe quebrar a resistência física e moral. “Eu tinha muito medo do que ia sentir na pele, mas principalmente de não suportar e falar. Queriam que eu desse o nome de todos os meus amigos, endereços... Eu dizia: ‘Não posso fazer isso.’ Como eu poderia trazê-los para passar pelo que eu estava passando?” Foram mais de 20 dias de torturas a partir de 28 de fevereiro de 1970, nos porões do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo. O estudante de ciências sociais da Universidade de São Paulo (USP) Anivaldo Pereira Padilha, da Igreja Metodista do bairro da Luz, tinha 29 anos quando foi preso pelo temido órgão do Exército. Lá chegou a pensar em suicídio, com medo de trair os companheiros de igreja que comungavam de sua sede por justiça social. Mas o mineiro acredita piamente que conseguiu manter o silêncio, apesar das atrocidades que sofreu no corpo franzino, por causa da fé. A mesma crença que o manteve calado e o conduziu, depois de dez meses preso, para um exílio de 13 anos em países como Uruguai, Suíça e Estados Unidos levou vários evangélicos a colaborar com a máquina repressora da ditadura. Delatando irmãos de igreja, promovendo eventos em favor dos militares e até torturando. Os primeiros eram ecumênicos e promoviam ações sociais e os segundos eram herméticos e lutavam contra a ameaça comunista. Padilha foi um entre muitos que tombaram pelas mãos de religiosos protestantes.
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O metodista só descobriu quem foram seus delatores há cinco anos, quando teve acesso a documentos do antigo Sistema Nacional de Informações: os irmãos José Sucasas Jr. e Isaías Fernandes Sucasas, pastor e bispo da Igreja Metodista, já falecidos, aos quais era subordinado em São Paulo. “Eu acreditava ser impossível que alguém que se dedica a ser padre ou pastor, cuja função é proteger suas ovelhas, pudesse dedurar alguém”, diz Padilha, que não chegou a se surpreender com a descoberta. “Seis meses antes de ser preso, achei na mesa do pastor José Sucasas uma carteirinha de informante do Dops”, afirma o altivo senhor de 71 anos, quatro filhos, entre eles Alexandre, atual ministro da Saúde da Presidência de Dilma Rousseff, que ele só conheceu aos 8 anos de idade. Padilha teve de deixar o País quando sua então mulher estava grávida do ministro. Grande parte dessa história será revolvida a partir da terça-feira 14, quando, na Procuradoria Regional da República, em São Paulo, acontecerá a repatriação das cópias do material do projeto Brasil: Nunca Mais. Maior registro histórico sobre a repressão e a tortura na ditadura militar (leia quadro na pág. 79), o material, nos anos 80, foi enviado para o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), organização ecumênica com sede em Genebra, na Suíça, e para o Center for Research Libraries, em Chicago (EUA), como precaução, caso os documentos que serviam de base do trabalho realizado no Brasil caíssem nas mãos dos militares. De Chicago, virá um milhão de páginas microfilmadas referentes a depoimentos de presos nas auditorias militares, nomes de torturadores e tipos de tortura. A cereja do bolo, porém, chegará de Genebra – um material inédito composto por dez mil páginas com troca de correspondências entre o reverendo presbiteriano Jaime Wright (1927 – 1999) e o cardeal-arcebispo emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, que estavam à frente do Brasil: Nunca Mais, e as conversas que eles mantinham com o CMI.

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Somente em 1968, quatro anos após a ascensão dos militares ao poder, o catolicismo começou a se distanciar daquele papel que tradicionalmente lhe cabia na legitimação da ordem político-econômica estabelecida. Foi aí, quando no Brasil religiosos dominicanos como Frei Betto passaram a ser perseguidos, que a Igreja assumiu posturas contrárias às ditaduras na maioria dos países latino-americanos. Os protestantes, por sua vez, antes mesmo de 1964, viveram uma espécie de golpe endógeno em suas denominações, perseguindo a juventude que caminhava na contramão da ortodoxia teológica. Em novembro de 1963, quatro meses antes de o marechal Humberto Castelo Branco assumir a Presidência, o líder batista carismático Enéas Tognini convocou milhares de evangélicos para um dia nacional de oração e jejum, para que Deus salvasse o País do perigo comunista. Aos 97 anos, o pastor Tognini segue acreditando que Deus, além de brasileiro, se tornou um anticomunista simpático ao movimento militar golpista. “Não me arrependo (de ter se alinhado ao discurso dos militares). Eles fizeram um bom trabalho, salvaram a Pátria do comunismo”, diz.

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Assim, foi no exercício de sua fé que os evangélicos – que colaboraram ou foram perseguidos pelo regime – entraram na alça de mira dos militares (leia a movimentação histórica dos protestantes à pág. 80). Enquanto líderes conservadores propagavam o discurso da Guerra Fria em torno do medo do comunismo nos templos e recrutavam formadores de opinião, jovens batistas, metodistas e presbiterianos, principalmente, com ideias liberais eram interrogados, presos, torturados e mortos. “Fui expulso, com mais oito colegas, do Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1962, porque o nosso discurso teológico de salvação das almas passava pela ética e a preocupação social”, diz o mineiro Zwinglio Mota Dias, 70 anos, pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, da Penha, no Rio de Janeiro. Antigo membro do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), que promovia reuniões para, entre outras ações, trocar informações sobre os companheiros que estavam sendo perseguidos, ele passou quase um mês preso no Doi-Codi carioca, em 1971. “Levei um pescoção, me ameaçavam mostrando gente torturada e davam choques em pessoas na minha frente”, conta o irmão do também presbiteriano Ivan Mota, preso e desaparecido desde 1971. Hoje professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Dias lembra que, enquanto estava no Doi-Codi, militares enviaram observadores para a sua igreja, para analisar o comportamento dos fiéis.

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Segundo Rubem Cesar Fernandes, 68 anos, antropólogo de origem presbiteriana, preso em 1962, antes do golpe, por participar de movimentos estudantis, os evangélicos carregam uma mancha em sua história por convidar a repressão a entrar na Igreja e perseguir os fiéis. “Os católicos não fizeram isso. Não é justificável usar o poder militar para prender irmãos”, diz ele, considerado “elemento perigoso” no templo que frequentava em Niterói (RJ). “Pastores fizeram uma lista com 40 nomes e entregaram aos militares. Um almirante que vivia na igreja achava que tinha o dever de me prender. Não me encontrou porque eu estava escondido e, depois, fui para o exílio”, conta o hoje diretor da ONG Viva Rio.

O protestantismo histórico no Brasil também registra um alto grau de envolvimento de suas lideranças com a repressão. Em sua tese de pós-graduação, defendida na Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), Daniel Augusto Schmidt teve acesso ao diário do irmão de José, um dos delatores de Anivaldo Padilha, o bispo Isaías. Na folha relativa a 25 de março de 1969, o líder metodista escreveu: “Eu e o reverendo Sucasas fomos até o quartel do Dops. Conseguimos o que queríamos, de maneira que recebemos o documento que nos habilita aos serviços secretos dessa organização nacional da alta polícia do Brasil.” Dono de uma empresa de consultoria em Porto Alegre, Isaías Sucasas Jr., 69 anos, desconhecia a história da prisão de Padilha e não acredita que seu pai fora informante do Dops. “Como o papai iria mentir se o cara fosse comunista? Isso não é delatar, mas uma resposta correta a uma pergunta feita a ele por autoridades”, diz. “Nunca o papai iria dedar um membro da igreja, se soubesse que havia essas coisas (torturas).” Em 28 de agosto de 1969, um exemplar da primeira edição do jornal “Unidade III”, editado pelo pai do ministro da Saúde, foi encaminhado ao Dops. Na primeira página, há uma anotação: “É preciso ‘apertar’ os jovens que respondem por este jornal e exigir a documentação de seu registro porque é de âmbito nacional e subversivo.” Sobrinho do pastor José, o advogado José Sucasas Hubaix, que mora em Além Paraíba (MG), conta que defendeu muitos perseguidos políticos durante a ditadura e não sabia que o tio havia delatado um metodista. “Estou decepcionado. Sabia que alguns evangélicos não faziam oposição aos militares, mas daí a entregar um irmão de fé é uma grande diferença.”

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Nenhum religioso, porém, parece superar a obediência canina ao regime militar do pastor batista Roberto Pontuschka, capelão do Exército que à noite torturava os presos e de dia visitava celas distribuindo o “Novo Testamento”. O teólogo Leonildo Silveira Campos, que era seminarista na Igreja Presbiteriana Independente e ficou dez dias encarcerado nas dependências da Operação Bandeirante (Oban), em São Paulo, em 1969, não esquece o modus operandi de Pontuschka. “Um dia bateram na cela: ‘Quem é o seminarista que está aqui?’”, conta ele, 21 anos à época. “De terno e gravata, ele se apresentou como capelão e disse que trazia uma “Bíblia” para eu ler para os comunistas f.d.p. e tentar converter alguém.” O capelão chegou a ser questionado por um encarcerado se não tinha vergonha de torturar e tentar evangelizar. Como resposta, o pastor batista afirmou, apontando para uma pistola debaixo do paletó: “Para os que desejam se converter, eu tenho a palavra de Deus. Para quem não quiser, há outras alternativas.” Segundo o professor Maurício Nacib Pontuschka, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, seu tio, o pastor-torturador, está vivo, mas os dois não têm contato. O sobrinho também não tinha conhecimento das histórias escabrosas do parente. “É assustador. Abomino tortura, vai contra tudo o que ensino no dia a dia”, afirma. “É triste ficar sabendo que um familiar fez coisas horríveis como essa.” 

Professor de sociologia da religião na Umesp, Campos, 64 anos, tem uma marca de queimadura no polegar e no indicador da mão esquerda produzida por descargas elétricas. “Enrolavam fios na nossa mão e descarregavam eletricidade”, conta. Uma carta escrita por ele a um amigo, na qual relata a sua participação em movimentos estudantis, o levou à prisão. “Fui acordado à 1h por uma metralhadora encostada na barriga.” Solto por falta de provas, foi tachado de subversivo e perdeu o emprego em um banco. A assistente social e professora aposentada Tomiko Born, 79 anos, ligada a movimentos estudantis cristãos, também acredita que pode ter sido demitida por conta de sua ideologia. Em meados dos anos 60, Tomiko, que pertencia à Igreja Evangélica Holiness do Brasil, fundada pelo pai dela e outros imigrantes japoneses, participou de algumas reuniões ecumênicas no Exterior. Em 1970, de volta ao Brasil, foi acusada de pertencer a movimentos subversivos internacionais pelo presidente da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, onde trabalhava. Não foi presa, mas conviveu com o fantasma do aparelho repressor. “Meu pesadelo era que o meu nome estivesse no caderninho de endereço de alguma pessoa presa”, conta. 

Parte da história desses cristãos aterrissará no Brasil na terça-feira 14, emaranhada no mais de um milhão de páginas do Projeto Brasil: Nunca Mais repatriadas pelo Conselho Mundial de Igrejas. Não que algum deles tenha conseguido esquecer, durante um dia sequer, aqueles anos tão intensos, de picos de utopia e desespero, sustentados pela fé que muitos ainda nutrem. Para seguir em frente, Anivaldo Padilha trilhou o caminho do perdão – tanto dos delatores quanto dos torturadores. Em 1983, ele encontrou um de seus torturadores em um baile de Carnaval. “Você quis me matar, seu f.d.p., mas eu estou vivo aqui”, pensou, antes de virar as costas. Enquanto o mineiro, que colabora com uma entidade ecumênica focada na defesa de direitos, cutuca suas memórias, uma lágrima desce do lado direito de seu rosto e, depois de enxuta, dá vez para outra, no esquerdo. Um choro tão contido e vívido quanto suas lembranças e sua dor.  

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Fonte: Isto É

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

RBHCS - Dossiê: Fé, religiosidade e cultura religiosa

Nova edição da
Revista Brasileira de História & Ciências Sociais - RBHCS
ISSN 2175-3423
Qualis Capes B1 – A Nacional

Volume 4- Número 8- Dezembro de 2012

Dossiê: Fé, religiosidade e cultura religiosa
Probabilismo e Teologia moral na prática judiciária na América espanhola do século XVII
Rafael Ruiz
Santa Cruz da Rufina: Devoção e Tradição Oral da Fé
Cícero Joaquim dos Santos
Visões sobre Eshu: Imagens e interpretações da Cosmologia Iorubá na África Ocidental. O olhar dos cientistas sociais (1950-1980).
Anderson Ribeiro Oliva
Recriando um passado imaginário: o “gothic revival” nas igrejas medievais de Norwich
Luís Mauro Sá Martino
 Padre Inácio de Sousa Rolim: sua influência na cultura sertaneja de 1800-1899.
 Eunice Simões Lins Gomes; Leonildo Silveira Campos
Os Novos Movimentos Religiosos Católicos e a reação à pós-modernidade.
 André Luiz Caes; Renato Martins de Oliveira
A inclusão de homossexuais no protestantismo.
Maria Cristina Rocha Barreto; José Evaristo de Oliveira Filho
O Movimento Mucker e suas relações com a igreja católica e a protestante.
Marinês Andrea Kunz; Roswithia Weber
Brahmacharya: a vida escolar hinduísta na Índia Antiga.
 Arilson Oliveira
Espaço funerário, etnias e valores religiosos no Cemitério da Santa Casa de Caridade de Bagé, RS: histórias de rechaço e acolhimento, um judeu e um negro.
 Fábio Vergara Cerqueira; Elaine Maria Tonini Bastianello

Artigos - Temática Livre
Miscigenação e Biopolítica no Brasil.
Mozart Linhares da Silva
Vida autônoma dentro da ordem estabelecida: as práticas de resistências ao serviço militar na fronteira oeste do Império (1850-1864).
Ana Claudia Martins dos Santos
“Minha querida Maria Rita”: o General Câmara na campanha do Uruguai (1864-1865) através de cartas a esposa.
André Fertig
Com o Martelo e com o Espírito: ciência prática, reprodução das elites e espírito de corpo na Escola de Minas de Ouro Preto.
Maria Amália de Almeida Cunha; Fábio Adriano Hering
História e Memória da Insurreição de 1935 nas entrevistas de Luiz Carlos Prestes.
Raimundo Nonato Pereira Moreira
Trabalho e repressão: memórias de um ferroviário sobre a ditadura civil-militar de 1964.
Edgar Ávila Gandra; Lidiane Elizabete Friderichs
 A grande repressão de 1932 em São Paulo.
 Marcos Tarcisio Florindo
 O Ambientalismo em Sergipe- Um percurso histórico dos movimentos ambientais entre 1983-2011.
 Matheus Pereira Mattos Felizola; Fernando Bastos Costa
Luís da Câmara Cascudo, historiador dos espaços.
Bruno Balbino Aires da Costa
Jeroky Mbaekua - aspectos da etnoarte indígena.
 Oseias de Oliveira
 A história e a temporalidade do risco
Carlos Henrique Armani
Estrutura & História.
Alicia Ferreira Gonçalves
Em defesa da pátria: proteção social, infância e maternidade no Estado Novo.
Elizangela Barbosa Cardoso
Fotografia, história e estudos sociais: propostas de interdisciplinaridade teórica aplicada à revista Careta.
Cláudio de Sá Machado Júnior; Maria Letícia Mazzucchi Ferreira.
Identidades e diferenças o caso da guerra civil na antiga Iugoslávia.
Sérgio Luiz Cruz Aguilar; Ana Luiza Terra Costa Mathias.
Os primeiros 300 anos de história: Portugal e Espanha na América.
Ronaldo B. Colvero

Transcrições
Conflito de jurisdição na Capitania do Rio de Janeiro no início do século XVII.
Maria Isabel de Siqueira; Thiago de Souza dos Reis

“Modo como se há de governar o gentio que há nas aldeias de Maranhão e Pará”: um regimento proposto pelo padre Antônio Vieira (ca. 1653).
 Karl Heinz Arenz; Francisco Renan Araújo da Silva

Pesquisa de Iniciação Científica
Caracterização fitogeográfica da região de assentamento das reduções jesuítico-guaranis estabelecidas no atual território do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil (século XVII).
Samuel Cristiano Welter

Resenha
Reflexões socioantropológicas sobre festa, religião e cidade no Brasil.
PEREZ, Léa Freitas. Festa, religião e cidade. Corpo e Alma do Brasil. Porto Alegre: Medianiz, 2011, 211p.
Mauro Dillmann

domingo, 25 de novembro de 2012

GTHRR-RS na Cadernos de CEOM

Saiu o número 35 da Cadernos de CEOM que conta com um artigo do Prof. Gabriel Brasil, membro do GT. Abaixo o link da publicação.

domingo, 18 de novembro de 2012

Exposição na UFSM

O Professor Vitor Biasoli em parceira com o fotógrafo Leonardo Brasiliense organizaram a exposição fotográfica intitulada

MOMENTOS DE FÉ, RELIGIOSIDADE & TRABALHO NA REGIÃO DA QUARTA COLÔNIA
DE IMIGRAÇÃO ITALIANA.
As fotos estarão dispostas no hall Prédio 74 C - campus da UFSM - entre os dias 19 a 30 de novembro
Abaixo o texto de apresentação e lista das fotos expostas (com títulos e pequena explicação).
Estão todos convidados.



Apresentação
Em 1877, o Governo Imperial criou a QUARTA COLÔNIA DE IMIGRAÇÃO ITALIANA, com sede em Silveira Martins. Em 1882, a colônia foi oficialmente extinta, mas os imigrantes e seus descendentes marcaram tão fortemente a região, que até hoje o nome perdura. Um povoamento marcado pela pequena propriedade rural e religiosidade católica. Esses dois elementos se articularam – trabalho & fé religiosa – e deram origem a uma sociedade e cultura peculiares. Uma sociedade onde a fé católica foi elemento ordenador e continua presente na dinâmica social. A organização familiar, as atividades econômicas, a vida social e cultural se articularam tão intimamente com o mundo religioso, que não podemos pensar a região sem a Igreja Católica.
Foi isto, então, que pretendemos com este trabalho. Durante o segundo semestre de 2011, Leonardo Brasiliense (fotógrafo) e eu percorremos os diversos caminhos da QUARTA COLÔNIA e buscamos os sinais dessa fé, religiosidade & trabalho. Cruzamos estradas, visitamos cidades, distritos, igrejas, capelas, conventos, moinhos, oficinas, alambiques, restaurantes, e ouvimos muitas histórias. Homens e mulheres nos receberam com paciência e nos revelaram os seus mundos. Leonardo buscou os melhores ângulos para registrar aquelas vidas e o resultado foi esse conjunto de fotos.
Os descendentes de imigrantes italianos continuam reinventando suas vidas – a fé & a religiosidade inclusive –, mas sempre com a lembrança dos antepassados. Nós, estrangeiros na região – fotógrafo e professor seduzidos pelas peculiaridades da QUARTA COLÔNIA –, também reiventamos o que vimos e ouvimos, mas sempre atentos à riqueza humana que se apresentava. E constatamos e nos emocionamos com o modo como fé & religiosidade se expressam na região. Não apenas nas capelas e cemitérios, mas na mão que empunha a cruz, colhe a cana-de-açúcar e faz a cachaça. Na criança que se veste de anjo, reverencia o santo e brinca com os irmãos. No corpo que sobe o serro, reza ao santo e come o churrasco assado ao lado da capela, feito por homens de mãos calejadas.
Foi isso que vimos e registramos: a fé & a religiosidade inseridas na vida cotidiana, produzindo corpos e gestos; mãos que seguram a relíquia sagrada, a enxada, contam dinheiro e também rezam – porque rezar é parte da vida.
Fotografias:
1.   A mão do trabalho, a cruz da fé. Relicário de São Valentim e de Santo Antônio nas mãos de Aquilino Venturini, responsável pela capela de São Valentim, no Vale Vêneto.
2.    Oração e recolhimento. Interior da capela de São Valentim. Ao fundo, sobre o altar, imagem do bispo Valentim, confortando uma mãe com filha doente. A representação segue modelo de estampa religiosa trazida da Itália por imigrantes.
3.    Interior de alambique. Proprietário do alambique (Aquilino Venturini) ao lado do tonel que recebe o caldo da cana recém moída.
4.    Menina com flores. Capela de São Patrício, santo protetor dos colonos contra o perigo das cobras, no Vale Vêneto.
5.    O neto do imigrante. Seu Lovatto, morador de Arroio Grande, um dos responsáveis pela capela de N.S. do Rosário.
6.   A torre do Rosário. Torre da capela de N.S. do Rosário. Segundo moradores, imagem da Virgem do Rosário veio com imigrantes da Itália e os salvou do incêndio que aconteceu no navio.
7.     O poço da memória. Etelvino Moro na frente do moinho, em Val de Buia.
8.    A pausa da carreta. Galpão da propriedade da família Moro, em Val de Buia.
9.    A roda da colônia. Roda do moinho da família Moro, em Val de Buia.
10.  Santo Antônio entre nós. Torre da igreja de Santo Antônio, em Silveira Martins, vista do interior do ex-Colégio Bom Conselho.
11. Lugar do rito litúrgico. Interior da igreja de Santo Antônio, em Silveira Martins.
12. Morreu por nós. Cristo morto no interior da igreja Santo Antônio, em Silveira Martins.
13. Vida banhada de fé. Rua do ex-Colégio N.S. de Lourdes, em Vale Vêneto. Atual Escola Estadual Rafael Iop e Casa de Retiro das Irmãs do Imaculado Coração de Maria.
14.  O caminho da cozinha. Interior da Casa de Retiro das Irmãs das Irmãs do Imaculado Coração de Maria, no Vale Vêneto.
15.   Santo Anjo protetor. Interior do ex-Colégio Bom Conselho, com imagem do Anjo da Guarda.
16.   Um anjo entre nós. Crianças vestidas de anjo em procissão na localidade Santos Anjos.
17.    O churrasco do Padre Pio. Almoço em dia de romaria na capela do Padre Pio, em Faxinal do Soturno.
18.   Maria entre nós. Conjunto de imagens sacras do antigo Seminário dos Palotinos, Vale Vêneto.
19.  As oferendas da Mãe. Escultura funerária no cemitério de Arroio Grande.  
20.  É preciso pernas para rezar. Romeiros na subida no cerro em direção à capela do Padre Pio.
21. Fé & cotidiano. Pai e filha sobem o morro para rezar na capela do Padre Pio.
22.      Viver, rezar, agradecer. Interior da capela do Padre Pio.
23.   Lembrança do Calvário. Cemitério de Silveira Martins.
24. O anjo da glória. Cemitério de São Marcos.
25.  Campo da paz. Cemitério dos padres palotinos, no Vale Vêneto.